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/lit/ - Literatura

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 No.2

/r/ mais livros desse estilo.

 No.12

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Eu não li nenhum dos três, descreva o formato.

 No.81

>>12 Eu não sou o OP, contudo posso descrever brevemente os dois livros citados que eu já li, Memórias do Subsolo e O Capote.

Memórias do Subsolo é uma novela existencialista que narra a história de um homem que apresenta uma boa dose de misantropia descrevendo as angústias do protagonista, que é solitário e se menospreza. A primeira parte da novela é mais focada na autodescrição do protagonista em seus devaneios e lamentações, já a segunda o protagonista narra os seus fracassos em desenvolver laços sociais quando adulto. É um livro excelente, 100% recomendável.

O Capote é mais curto, é um conto. Ao contrário de Memórias do Subsolo, preza pela simplicidade, por uma escrita mais direta e menos poética. O protagonista é um funcionário público pobre que junta arduamente dinheiro para comprar um capote para sobreviver ao duro inverno russo. O livro é engraçado, usa bem o típico humor russo na literatura no decorrer da história. É um livro muito bom, também é um livro seguramente aproveitável.

 No.114

>>81
É uma sátira ao que virá a ser o existencialismo, anão. Essa interpretação da obra que você deu está incorreta. O livro é uma grande ironia, uma tiração de sarro com a intelectualidade materialista da época.

 No.115

>>81
Se preferir, posso discorrer mais sobre isso; mas não sei se você ainda está no fio.

 No.116

>>115 Pode discorrer, anão.

 No.118

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>>116

NOTAS DO SUBSOLO
Parte I
Recentemente, comprei a edição da Nova Fronteira de Memórias do subsolo, Dostoievisk. Não tenho nada que falar da tradução, a Ruth Guimarães fez um ótimo trabalho, por sinal. Na verdade, o único problema da edição é a contracapa:

"Considerado o livro precursor do existencialismo, Notas do subsolo traz o relato de um anti-herói que (…)"

Precursor do existencialismo? Nananinão. É exatamente o contrário, é uma sátira profética, uma sátira desta corrente "filosófica" natimorta. Não dá pra culpar, contudo, os que entenderam o livro de forma diversa. A verdade é que o Dostoievisk não tem talento para sátira - é muito difícil perceber, mesmo no original, que o livro é irônico; ainda mais lendo as traduções, que naturalmente distanciam a obra da sua intenção original.

ENTENDENDO O LIVRO

O PALÁCIO DE CRISTAL E O GALINHEIRO

Acredito que há dois grandes motivos para o não-entendimento do livro. O primeiro é a censura da Okhrana- polícia secreta do Czar - que mandou tirar, por exemplo, todas as menções ao cristianismo do livro - eles, incapazes de entender o pensamento de Dostoievisk, achavam que ele falava mal da religião; o segundo e mais grave motivo são as constantes menções a intelectuais socialistas da época, como Tchernichevski, que escreveu Que Fazer, livro que discutia o livre-arbítrio - ou a falta de - do homem.
-
No livro, Tchernichevski (estou copiando e colando o nome dele) faz menção a um "Palácio de Cristal", que seria o símbolo do socialismo - o império da razão. Para entender isto, precisamos dar três passos pra trás e um flip-mortal-carpado, parando direto nas ciências exatas, mais precisamente na física Newtoniana. A "grande" descoberta do século XIX foi a ideia da matéria mecanicista. Newton prova que a matéria - pelo menos a conhecida até o momento - é regida por imperativas leis naturais, das quais ela não pode fugir. Sendo o homem matéria, ele também deveria ser regido por leis - assemelhando-se, portanto, a uma mera tecla de piano (expressão tirada do mesmo livro já citado). Enfim, não há livre-arbítrio, e o homem segue a sua lei natural, mas qual é a lei natural do homem? "Bem, eles dizem, a lei natural do homem é a racionalidade - e a racionalidade conduzirá o homem ao socialismo". Eis o Palácio de Cristal.

A primeira consequência desta visão de mundo mecanicista é a morte da culpa. Não há mais Direito, assassinos, ladrões ou estupradores - o que há são doentes. Todos somos regidos pelas leis naturais e tudo que fazemos é, na verdade, inevitável - assim como o lobo mata sua prêsa porque tem fome, assassinamos nosso vizinho por causa da nossa biologia, do nosso meio; enfim, por qualquer fator exterior, afinal, a vontade humana não existe - não passa de um produto das circunstâncias. Ora, como o próprio Homem do subsolo (o nome dele não é citado uma única vez no livro) nos diz: "este é um princípio de morte, não de vida". Se tudo que fazemos já está listado, catalogado e determinado pelas circunstâncias - se, afinal, não há vontade humana alguma - então só o que resta é a inércia: "todo homem de ação é burro";pois não conhece as leis naturais, mas ele, que passou toda a vida sem fazer nada; ele é inteligente, afinal conhece as leis naturais e, portanto, não age.

 No.119

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>>118
II - O GALINHEIRO:

"(…) Se em lugar de um palácio de cristal eu só disponho de um galinheiro, quando chove, eu me insunarei talvez no galinheiro, para fugir à chuva (…)"
O "galinheiro" é o cristianismo - nomeou assim para fugir da censura.

O primeiro problema com este palácio de vidro é o próprio ser humano. A verdade é que a imensa maioria das pessoas age mal, sabendo que assim o age, e contra o seu próprio interesse - o homem do subsolo é exatamente assim. Por isso os socialistas não cansavam de profetizar um "novo homem", o homem racional - homem que tentaram busca na marra, demolindo igrejas e perseguindo os "pios obscurantistas".
-
"É que essa liberdade possui a seus olhos [do homem] mais atrativos do que seus interesses…"

Sabendo do apetite perpétuo do ser humano, Dostoievisk obviamente não comprou a ideia do "Palácio de Cristal" como satisfação final humana. Assim que o palácio estivesse de pé, o que o homem mais desejaria seria destruí-lo, ou a ele não daria valor algum. Toda vida humana é resumida numa parábola. Subimos ao cume, e por um momento achamos ter agarrado a plenitude - até que a monotonia a mate; e caímos para um estado de tristeza contente e novos desejos, desvalorizando ingratamente aquilo que um dia nos animou o coração. Sabe aquele refrão islâmico que ninguém quer escutar? O tal Allahu Akbar? Bem, ele não quer dizer "Deus é grande", como traduz a mídia. A tradução correta é: "A Divindade é maior". Infinitamente bom, infinitamente maior do que se imagina - uma parábola com um vértice em perpétua ascensão.

"(…) Mas o homem nutre tal paixão pelos sistemas, pelas deduções abstratas, que está pronto a desfigurar conscientemente a verdade, pronto a fechar os olhos e tapar os ouvidos diante da verdade, tudo para justificar sua lógica."

Por fim, o homem do subsolo é o perfeito retrato da personalidade revolucionária. Vaidoso até as tampas e, paradoxalmente, invejoso - e, por consequência, sadomasoquista. "Não posso viver sem exercer o meu poder sobre alguém… sem tiranizar alguém…"
O que eu achei sobretudo mais profético no livro foram suas passagens finais:

"É-nos mesmo penoso sermos homens, homens possuindo um corpo bem seu, e sangue; temos vergonha, consideramos isso como um opróbrio e desejamos ardentemente tornarmo-nos espécies de seres abstratos, universais. Somos seres natimortos, e já há muito tempo aliás não nascemos de pais vivos, o que sobremaneira nos agrada. Logo encontraremos o meio de nasccer diretamente da ideia."

Este é, literalmente, o Satre. Porra, o cara era um biruta - um completo desparafusado. Tinha raiva de ter nascido de um pai, tinha nojo - vergonha.

———————————————–

Mesmo Nietzsche achou que o livro era não-irônico; ele achava que o homem do subsolo era o literal super-homem.

 No.120

>>118 Interessante esse ponto de vista. Eu percebi que no livro tinha críticas à modernidade e o racionalismo, assim como uma exposição de uma certa patologia característica do homem moderno de tentar alcançar um certo "progresso" dentro da vida material dele. Eu considero Memórias do Subsolo uma obra existencialista na medida em que afirma que a modernidade não apresenta valores mais profundos que sustentam os nossos valores adotados, uma falta de "verdade universal". Todavia, Dostoiévski se difere da maioria dos existencialistas na medida que exalta a religião e as tradições como forma de salvação do homem na modernidade. Nesse aspecto Dostoiévski lembra um pouco o Kierkegaard, que também via a religião como o objeto que pode nos trazer significado.

 No.121

>>120
Mas o homem do subsolo não é o Dostoievisk e não exprime o pensamento dele. Todos os personagens dos demais romances estão aí, em potência; sendo o homem do subsolo um pré-Raskolnikov. Este livro é uma sátira, uma ironia com a intelectualidade da época - vaidosa e faladeira.

A literatura não é um exercício de mesquinheza, não se escreve apenas sobre si mesmo e suas opiniões - é bem o contrário: abarca-se o meio e transcende, sendo capaz de explicá-lo profundamente; foi isso que o Dosto fez.

Talvez este livro mostra apenas uma fase do Dostoivisk, mas é pouco provável, uma vez que mesmo na sua era socialista, Dostoievisk vivia na parte "romancista" do grupo. Ele queria ler as novelas, romances, etc. Não se importava tanto com as teorias deterministas do socialismo quanto seus amigos - chefe do grupo era um ateu matemático, pra você ter uma ideia. Então, é mais provável que o homem do subsolo seja gente deste tipo - ateu e matemático - do que o próprio Dostoievisk.



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