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 No.4

POESIA FIO

Convido os anões interessados em expressão poética a discutirem quaisquer aspectos linguísticos que lhes atraem a atenção, principalmente, em autores brasileiros e portugueses. Tenhamos como objetivo fundamental ajudarmo-nos uns aos outros a compreender melhor os elementos que constituem a poesia — ritmo, escolha vocabular, imagética etc.

Não entendo nada de poesia. Por onde devo começar?
Não há caminho correto, mas a leitura dos clássicos é indispensável. A tríade portuguesa — Camões, Bocage e Antero de Quental — é o começo ideal. Se considerá-los de difícil leitura, pode tentar poetas mais próximos à linguagem atual, como Manuel Bandeira, Castro Alves, Jorge de Lima, Augusto dos Anjos, Alphonsus de Guimaraens e Fernando Pessoa.

Como ler poesia?
Num primeiro momento, prestar atenção às impressões que o poema evoca; num segundo, buscar o porquê por trás dessas impressões — por que esta e não aquela palavra?, por que o hipérbato e não a ordem direta? etc. Porém, para quem está começando, o importante é atentar-se às características sonoras, principalmente, ritmo e entonação.

Que poemas você recomenda a quem está começando?
Camões: Alma minha gentil, que te partiste, Sete anos de pastor Jacó servia e Aqueles claros olhos que chorando.
Manuel Bandeira: Epígrafe, Desencanto e Chama e fumo.
Castro Alves: Adormecida e Canção do boêmio.

Sites que podem vir a calhar:
https://archive.org
http://www.aulete.com.br/analogico

 No.5

Análise do primeiro verso de Epígrafe, de Manuel Bandeira.

Sou bem-nascido. Menino,
Fui, como os demais, feliz.
Depois, veio o mau destino
E fez de mim o que quis.

Trouxe este exemplo porque me chamou a atenção o uso de Menino,. Uma única palavra de extremo poder evocativo, seguida por uma vírgula — que funciona como que um meio de indicar ao leitor que a palavra é apenas um complemento circunstancial da oração. Se o poeta, ignorando os limites da métrica, tivesse escrito Quando eu era menino ou Quando menino, percebam como a imagem se alteraria, mesmo que sutilmente. Ao invés de imaginar um menino, o leitor poderia pensar em um local, situação etc. de sua infância ou, até mesmo, poderia pensar no próprio Manuel Bandeira. Estas, que são imagens posteriores à ideia de menino, não servem ao interesse do poeta. Percebam que quanto mais palavras, mais corrompido é o sentido puro de menino. Quando eu era menino quase que apaga a imagem de menino, enquanto Quando menino, não. Em supondo, porém, a intenção de Bandeira, eu posso estar errado, mas, de qualquer forma, é uma grande lição sobre o poder evocativo de palavras isoladas.

 No.11

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>>5
Meu conhecimento sobre poesias é nulo. Porém, creio que você tem um ponto aqui. O escritor tem que escolher as palavras que melhor pintem o que ele pretende passar.

É incrível o quanto uma pequena mudança pode encerrar um mar de diferença. Seu exemplo foi excelente, eu realmente imaginaria o poema de outra forma, e a mensagem estaria deturpada.

Continue nesse formato, talvez eu tome gosto por poemas, e você será o culpado.

 No.16

Pleonasmo e subjuntivo.
Como ficou evidente na postagem sobre a importância do poder evocativo das palavras, o poeta deve meditar muito a respeito de como transmitir, o mais autenticamente possível, as suas intenções ao leitor. Por isso, discorrerei hoje sobre um tema interessantíssimo: o uso do pleonasmo. Comumente nos é dito que devemos evitá-lo, pois é vício de linguagem. Não discordo totalmente dessa afirmação, mas acrescento que só é vício se utilizado sem propósito. Vejamos, brevemente, alguns versos das duas primeiras estrofes deste soneto de Camões.

Cara minha inimiga, em cuja mão
Pôs meus contentamentos a ventura,
Faltou-te a ti na terra sepultura,
Porque me falte a mim consolação.

Eternamente as águas lograrão
A tua peregrina fermosura;
Mas, enquanto me a mim a vida dura,
Sempre viva em minha alma te acharão.

E se meus rudos versos podem tanto
Que possam prometer-te longa história
Daquele amor tão puro e verdadeiro,

Celebrada serás sempre em meu canto;
Porque, enquanto no mundo houver memória,
Será a minha escritura o teu letreiro.

Sempre há a possibilidade de o poeta ter utilizado o pleonasmo com o intuito de completar a métrica do verso — o que, embora seja apelação, é válido. Ignorando, porém, essa possibilidade, temos um fenômeno linguístico de muita serventia a nós, escritores, pois permite que salientemos intensamente as pessoas do discurso. Quando Camões diz Faltou-te a ti na terra sepultura, porque me falte a mim consolação, percebe-se o objetivo de contrastar, através da intensificação dos pronomes, o eu-lírico e sua "inimiga". Já em Enquanto me a mim a vida dura, o poeta chama a atenção apenas para si mesmo.

Além do pleonasmo em Faltou-te a ti na terra sepultura, porque me falte a mim consolação, há também um uso magistral do subjuntivo. Para esclarecer: a "inimiga" do poeta é, na verdade, sua amada. Assim sendo, quando Camões escolhe o subjuntivo ao invés do pretérito perfeito — o tempo verbal comum a uma relação de causalidade ("porque") —, percebe-se a intenção do eu-lírico em continuar sofrendo nas mãos de sua amada. É como se ele disse que me falte a mim consolação.

>>11
Obrigado pelas doces palavras, anão. Continuarei com as postagens, mas não garanto uma frequência estável.

 No.47

Cruz e Souza é o melhor poeta que o Bostil já teve.

 No.80

>>47
Apenas isto, sem mais.



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